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Com sangue quente de baiana e uma visão clara sobre si mesma, Jéssica Alves percorreu uma trajetória que começa em um quilombo da Bahia, passa por São Paulo e se prepara para ganhar o mundo. Bisneta de uma mulher escravizada, Jéssica cresceu em um lugar que um dia foi refúgio para dezenas de pessoas negras. Ali, ela criou memórias preenchidas com natureza, folclore e cultura, enquanto observava a luta diária de sua mãe na roça. Durante a adolescência, pensar sobre uma carreira específica parecia menos importante do que garantir a própria independência. “Se eu tivesse dinheiro, teria segurança. A primeira vez que pensei em profissão não foi pela profissão, mas pelo emprego”, recorda.
O desejo de construir um futuro mais seguro a levou a estudar Contabilidade. Começou com um curso técnico no Ensino Médio e, logo após, entrou na graduação em uma das melhores faculdades do país na área. Mesmo sem ver muitas pessoas negras dividindo a sala de aula e sem encontrar quem entendesse sua realidade de precisar trabalhar para pagar conduções e livros, Jéssica nunca deixou que isso a afastasse dos objetivos que traçava. “Desde pequena sempre me vi como pessoa preta. Quando eu era considerada ‘a mais feia da sala’, eu sabia que isso não era sobre mim, mas sobre como a sociedade enxerga a beleza das pessoas negras.”
A jovem deu seus primeiros passos no mercado como estagiária em diferentes empresas, ganhando experiência e se destacando por sua dedicação. Encontrou alguns aliados pelo caminho, como um gestor que abriu portas para ela em uma multinacional, mesmo antes de ela dominar o inglês e o Excel, habilidades exigidas na época. Com esforço e resiliência, Jéssica se desenvolveu e foi indicada para uma das Big Four — como são conhecidas as quatro maiores empresas de auditoria do mundo. “Unir habilidades técnicas em análise de dados com as habilidades de comunicação e relacionamento sempre fez parte da minha personalidade. Isso me ajudou a ganhar destaque, sendo chamada para projetos relevantes e liderando equipes com pessoas de maior senioridade.”
Seu sucesso dentro da multinacional gerou expectativas altas: “Falavam que eu seria sócia, com certeza”. Porém, a pressão intensa e as cobranças excessivas começaram a afetar sua saúde física e mental. Ela estava se dividindo entre treinar profissionais no Brasil e no exterior e cumprir suas funções habituais, mas sem o reconhecimento necessário. “O cansaço extremo gerou uma crise de ansiedade. Busquei ajuda de um psiquiatra e descobri que estava num quadro de burnout, aos 23 anos. Foi quando percebi que, para me manter saudável, precisava sair desse ambiente.”
A saída foi um momento difícil, mas Jéssica sabia que, mais do que uma mudança de empresa, precisava redirecionar sua carreira. Fez dois MBAs — em Data Intelligence and Analytics e em Design Thinking — e hoje estuda Ciência de Dados com Inteligência Artificial, uma área que, segundo o Fórum Econômico Mundial, é uma das mais promissoras para o futuro do trabalho. O desejo de conciliar análise de dados com inovação e impacto social levou Jéssica a se dedicar à visualização de dados, tornando informações complexas mais acessíveis e compreensíveis para a tomada de decisões.
“Trabalhar com dados é mais do que lógica e matemática. No fim do dia, estou contando histórias. Conecto pessoas a uma linha do tempo e apresento o que está acontecendo de forma que elas possam entender para tomar decisões. Visualização de dados é isso: a arte de contar histórias por meio de números”, explica.
Hoje, além de atuar como engenheira de dados em uma instituição bancária, Jéssica se destaca como mentora de carreira. Seu foco é apoiar outras mulheres negras a desenvolverem suas trajetórias profissionais e a alcançarem posições de liderança. “Decidi formalizar esse trabalho quando percebi que já era mentora das minhas amigas. Eu criava planos para elas, identificava padrões e resolvi empreender nesse lugar, além de atuar em voluntariado para apoiar mulheres negras em tecnologia. Já somos poucas mulheres na área e, quando falamos de mulheres negras, a dificuldade de chegar a cargos de liderança é ainda maior.”
Jéssica acredita que a falta de representatividade e apoio está no cerne dessa questão. “Muitas de nós não temos o ‘coach de mesa’, aquela orientação que pessoas brancas muitas vezes recebem em casa, como se portar no meio corporativo. Hoje, tenho tranquilidade para impor limites e me posicionar diante da liderança, e quero ajudar outras mulheres a chegarem nesse nível.”
Para Jéssica, o sucesso vai além das conquistas profissionais: ele passa por levar consigo as pessoas ao seu redor e contribuir para a transformação social. Ela ajudou a mãe e a irmã a concluírem o Ensino Médio, ensinando-as em casa. Hoje, sua irmã, que antes trabalhava como faxineira, atua como auxiliar de enfermagem. “Sucesso, para mim, é saber que estou gerando impacto. Gosto de ter recursos para ir além da sobrevivência, para investir em educação, apoiar negócios de pessoas negras e proporcionar momentos de lazer e conforto. Gosto de poder convidar minhas amigas para um brunch e presentear quem amo. O sucesso é, também, sobre abrir caminhos para quem vem depois.”
Com uma mente inquieta e uma determinação que não conhece limites, Jéssica se prepara para dar ainda mais passos audaciosos. Em um mercado que muitas vezes limita as possibilidades para profissionais como ela, sua atuação vai muito além dos números e dados: ela está reescrevendo a narrativa de sua própria história e, com isso, ajudando a redefinir o que significa ser uma mulher negra de sucesso na tecnologia.
“Um dia, o mundo ainda vai saber o meu nome. Não sei como, nem quando, mas sei que quero abrir portas, estar em grandes organizações e impactar o maior número de pessoas possível. Até lá, vou seguir transformando cada passo que dou em um caminho para os meus.”
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